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O impacto do racismo no psiquismo

Atualizado: 4 de jul. de 2022

Tainã Rocha




O que vemos quando olhamos? Não vemos A realidade. “As redes do ver, do tocar ou de qualquer atestação sensível não correspondem ao imediatismo natural da percepção, mas à multiplicidade das inscrições imaginárias e simbólicas pelas quais o corpo é psiquizado e simbolizado” (Thamy Ayouch, 2014, p. 59) . Ser negro, assim como ser branco, não é um fato fora do simbólico. No momento em que nomeamos "negro", "branco", transformamos o que é da ordem do real do corpo em um significante, portanto, o que chamamos de raça é um fato de linguagem e nosso olhar sobre essa diferença está tomada por certa simbolização que designa um sentido a tal característica que, a priori, seria da ordem do sem sentido no humano.


O significante negro foi historicamente carregado de significados pejorativos. Nesse sentido, retomamos a pergunta de Isildinha Baptista Nogueira: Se o que constitui o sujeito é o olhar do outro, como fica o negro que se confronta com o olhar do outro, que mostra reconhecer nele o significado que a pele negra traz enquanto significante?


Neusa Santos Souza em seu livro “Tornar-se negro” fala sobre o papel do narcisismo e do Ideal do Eu na constituição psíquica especificamente da pessoa negra. Ela vai dizer que é necessário para o ser humano que haja um modelo a partir do qual se constitua o indivíduo. É condição que esse modelo recupere o narcisismo original perdido, ainda que por meio de substitutos idealizados (como os pais). É o que chamamos de Ideal do Ego, instância que estrutura o psiquismo e formula os ideais pelos quais nos orientamos, indicando o que devemos ser. Realizar esse Ideal do Ego é uma exigência que o Superego impõe ao Ego, de modo que ao se aproximar desse ideal, há uma sensação de satisfação, enquanto ao se afastar dele, se experimenta sentimentos de inferioridade e culpa.


O que ocorre com os sujeitos negros? Pergunta a autora. Ao nascer e se socializar em um contexto cujo ideal imposto é o ideal branco, com o que ele poderá se identificar? Vai assimilar esse ideal para si mesmo. A autora vai dizer que na construção do Ideal do Eu Branco, a primeira regra é a negação da negritude. Como isso pode se manifestar?


  1. Através de um "não querer saber" das raízes negras negras. Podemos localizar essa negação na própria constituição de nossa identidade nacional. Enquanto as pessoas brancas falam com orgulho de seus ancestrais italianos, portugueses, alemães... as pessoas negras não sabem sua origem, não sabem de que país vieram seus ancestrais, pois encontrar registros em que essa informação possa ser localizada é um desafio praticamente impossível. Nosso país buscou historicamente apagar as marcas afro em nossa cultura, tanto pelo incentivo à migração europeia com o objetivo de “embranquecer” os brasileiros, quanto pela negação das contribuições negras à nossa história, inclusive a nível cultural e intelectual. A reprodução dessa negação na esfera individual é notória em diversas situações. Por exemplo, quando ouvimos: “você não é negra, você é morena” ou “tem que casar com alguém branco para 'limpar' a família” ou mesmo em situações em que, para ter acesso a determinados espaços, se exige o abandono de aspectos estéticos e culturais afro-brasileiros.

  2. Pela rejeição do próprio corpo. Se o ideal social reproduz o modelo eurocêntrico, conceitos como “belo” e “desejável” serão contaminados por essa lógica racial dominante. A busca por esconder traços afros é uma tentativa de realizar o ideal branco no próprio corpo, um ideal impossível de ser alcançado. Porém, mais do que isso, é uma tentativa de se defender da rejeição desse Outro social que o exclui.

  3. Negação do racismo. O fato de 70% das pessoas abaixo da linha da pobreza serem negras não é problematizado nem choca. Isso não é considerado um produto do racismo estrutural. O discurso da meritocracia contribui para a aceitação dessa realidade socioeconômica como algo natural. Nessa lógica, a exceção nega a regra. E assim o racismo também é negado. Ao viver uma segregação silenciosa, às vezes a negação do racismo aparece como uma dúvida, quando o sujeito duvida do status da violência sofrida e procura em outro lugar algo que justifique tal violência.

  4. Superexigência em relação ao próprio desempenho. Muitas vezes a forma de se defender do racismo e ser aceito é buscando ser “o melhor” em tudo, fazer tudo perfeito, como forma de “compensação”. Esse imperativo que nega a possibilidade de errar, também exige do sujeito certa renúncia a uma parte de sua humanidade, deixando-o preso no lugar da máquina de produção.

Diante da impossibilidade de realizar o Ideal branco, o sujeito encontra duas alternativas:


1 - Sucumbir aos castigos do superego: e então ocorre o fracasso do ego, que se manifesta como perda da autoestima, sentimentos de culpa, inferioridade, insegurança, conformismo e angústia.


ou


2 - Lutar: Escolher o branco como ideal de ego "significa engendrar para si uma ferida narcísica que, como condição de cura, exige do negro a criação de outro ideal de ego que lhe ofereça um rosto próprio, que encarne seus valores, que tenha como referência sua história" (Souza, 1983). Como diz Costa (2021), “sou negro, mas não sou seu negro”. A luta consiste nisso, em imprimir no mundo outros sentidos para esse significante: ser negro. Acreditamos que o processo analítico pode criar condições para isso.




Referências:

Ayouch, T. (2014) A diferença entre os sexos na teorização psicanalítica: aporias e desconstruções. Revista Brasileira de PsicanÁlise. Associação Brasileira de Psicanálise, 2014, 48, pp.58 - 70.


Costa, Jurandir Freire. (2021) Do desamparo narcísico ao desespero: incidências da violência racista na economia psíquica. En: Relações raciais na escuta psicanalítica. São Paulo: Zagodoni.


Nogueira, B. I. (2017). Cor e Inconsciente Em: Noemi Moritz Kon, Cristiane Curi Abud, Maria Lucia da Silva (Org.). O racismo e o negro no Brasil. Questões para a psicanálise. (pp. 1-302). 1 edição. São Paulo: Perspectiva.


Souza, Neusa Santos. (1983). Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edição Graal.






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