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Nostalgia: um velho sentimento

Gicelma Barreto Nascimento


O filme Divertida Mente aborda, de maneira lúdica, a importância e a função das emoções humanas. Na infância a mente da menina Riley é governada pelos sentimentos básicos-alegria, tristeza, raiva, nojo e medo- nessa fase a alegria assume o controle e seu objetivo é fazer com que a protagonista nunca sinta tristeza ou outros sentimentos não alegres. 

Em Divertida Mente 2 Riley completa 13 anos. Ela é invadida por alguns sentimentos novos e mais complexos- ansiedade, tédio, vergonha, inveja e nostalgia- aqui a ansiedade controla a mente da adolescente. Seu objetivo é evitar com que coisas muito ruins aconteçam e garantir um futuro exitoso. A maioria das crenças da ansiedade são irreais e com isso ela causa grandes estragos no presente e desregula emocionalmente a protagonista.  

Fui convidada por duas amigas para  assistir ao filme, eu havia retornado depois de alguns meses de intercâmbio, por isso neste dia o afeto que me dominava era a saudade. Neste escrito gostaria de comentar sobre a importância da nostalgia e como esse afeto é apresentado no filme. 

Qual espaço temos dado para a nostalgia? Em qual idade começamos a nos sentir nostálgicos? Esse sentimento indica que estamos envelhecendo e por isso queremos evitá-lo? 

A palavra nostalgia vem do grego nostein (retorno) e algia (dor), e significa um doloroso retorno a um passado, onde sentíamos que éramos felizes e no qual nos sentíamos completos. Embora às vezes dolorosa, a nostalgia também funciona como recurso psíquico importantíssimo. É uma tentativa de preservar o que foi perdido e no processo de luto, onde se trabalha para aceitar a perda, cumpre a função de transição. O que foi perdido é retido, através de memórias. Memórias muitas vezes idealizadas para dar espaço a aceitação e elaboração daquilo que se foi.

Em divertida mente 2 a nostalgia  é uma velha que aparece de maneira inesperada, mas que rapidamente é retirada de cena, parece que nunca é o momento para que Riley possa deixar-se dominar por esse “velho sentimento”.  É uma velha doce e amável, com seus óculos cor de rosa, o que indicaria que muitas vezes vemos o passado muito mais bonito do que realmente foi. A velha nostalgia  aparece em apenas duas cenas, muito à vontade, de pantufa e roupas simples. É um sentimento positivo, porém abordado como não sendo um afeto importante para a adolescência, por isso deveria retornar na vida adulta, “retorna daqui há 10 anos, depois de Riley ter vivido algumas formações ou o casamento de alguma amiga”. 

Porém, é importante afirmar que o sentimento de nostalgia não é próprio do envelhecimento, ele nos acompanha em todas  as fases da nossa vida. Na adolescência, a nostalgia cumpre uma função importante: a criança entra na adolescência com a tarefa inevitável de lamentar tantas perdas; o luto pela criança que não é mais, o luto pelo corpo que está se transformando, o luto pelos pais da infância. Nesse sentido, os adolescentes podem vivenciar a nostalgia como um desejo doloroso de retornar àquele estado de maior proteção da infância; em que não questionavam os pais, em que não tinham de enfrentar tantas mudanças, nem separação. É verdade que à medida que envelhecemos o sentimento de nostalgia pode estar mais presente, talvez porque o passado faz mais falta ou porque na velhice as perdas vivenciadas ao longo da vida se fizeram  maiores. 

Nas palavras do psicólogo Alexandre Coimbra Amaral a nostalgia é um verdadeiro espiral do tempo e ele define muito bem a sua função e importância para nossa saúde mental: “ Sentindo saudades, você se empodera para fazer o melhor futuro realmente acontecer  para você. E reaprende a estar presente, no único tempo que realmente importa, que é o aqui e agora. Afinal, é neste exato momento que a lágrima escorre. A saudade é uma reedição, revisitada e ampliada, do futuro que você jamais imaginou ser.” 

É por meio da nostalgia que valorizamos etapas anteriores da vida para continuarmos olhando para o futuro com maior senso de controle. Se a nostalgia tivesse ganhado mais espaço no filme, Riley poderia lembrar dos valores que eram fundamentais para ela ou da ética que pautavam as suas escolhas, com isso, muitas coisas poderiam ter sido menos complexas dentro da mente da adolescente e a ansiedade que se preocupa tanto com um futuro fantasioso não ganharia tanto espaço. 


Referências 


Amaral, Alexandre Coimbra (2020). Cartas de um terapeuta para seus momentos de crise. São Paulo: Planeta do Brasil. 


Kelsey Mann (Direção) . 2024. Inside Out 2 [Filme]. Pixar Animation Studios.  





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