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Das tristezas natalinas

Atualizado: 28 de dez. de 2023

Tainã Rocha



Outro dia escrevi para uma amiga que é de minha terra natal. A gente se conhece faz tempo. Tento calcular há quantos anos nos conhecemos e com espanto me dou conta de que são mais de 20 anos! Se fosse um casamento estaríamos completando bodas de porcelana, ou quem sabe de prata… Bom, escrevi para essa amiga para contar-lhe um sonho que havia tido com ela. Gosto de aproveitar esses pequenos acasos que a vida me oferece para demonstrar afeto, é uma forma de dizer, ainda que indiretamente, que pensei, recordei ou senti saudades daquela pessoa. Entre lembranças nostálgicas e atualizações sobre a vida, nossa conversa foi se encaminhando para o tema do momento: natal e ano novo.


"Não gosto do natal, acho uma festa triste ... e o Réveillon também”, me confidencia ela. Eu respondo que também me sinto assim nessa época. Ela diz aliviada: “Me senti normal agora, achava que só eu sentia isso”. Eu brinco dizendo que não sou um bom parâmetro de normalidade. Rimos. E ela conclui: “Mas agora sei que não estou só nessa”. Fim de ano para muita gente é um período difícil, por vários motivos. Não costumo fazer balanços formais do ano que passou ou lista de metas para o ano que virá, mas faço parte do grupo daqueles que se veem afetados por um mundo de sentimentos que desacomodam… Nem sempre fáceis de serem identificados e nomeados.


Independente de quantos anos uma relação tenha, é sempre possível descobrir coisas novas sobre o outro. Um amigo nunca deixa de ser um (in)familiar, esse íntimo-estranho. Começamos a falar sobre o que compunha essa leve tristeza que acometia a cada uma de nós nesse período. A tristeza não é um afeto óbvio, nasce do encontro com o abismo que nos habita. Pude descobrir algumas coisas acerca da minha tristeza a partir dessa conversa. O que me entristece nesse período é um sentimento de luto daquilo que está irremediavelmente perdido e que as festividades ao tempo que tentam apagar, também evidenciam na medida em que oferecem a promessa de que a magia da época é capaz de recuperar. Minha recusa diante dessa ilusória promessa se manifesta como esperança decepcionada, esse é o nome de minha tristeza natalina. E o trabalho a que sou convocada é o de apropriar-me desse luto não-todo capturável.


Talvez a sua tristeza também tenha um nome, ou vários. Pode se relacionar com questões econômicas, problemas familiares, a perda de pessoas queridas, o descobrimento de uma doença, a frustração por um projeto que desandou, a ruptura de um relacionamento, a sensação de solidão, o medo diante das incertezas de um futuro que se aproxima, a queda de alguns ideais que te sustentavam… A lista poderia seguir, mas o que quero transmitir é que sua tristeza é legítima e está a espera de ser contada. A tristeza é também um convite à nossa humanidade, é um afeto que acompanha momentos de elaboração da falta. “Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito” (Clarice Lispector). Atravesse a sua tristeza, há todo um mundo a ser descoberto do outro lado.



#Natal   #Navidad #Perda #Pérdida #TristezaNatalina #TristezaNavideña #Psicanálise






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