A mulher nasceu para cuidar?

Atualizado: 29 de abr.

Iassana Scariot & Gicelma Barreto Nascimento


Um belo dia o Cuidado atravessou um rio, tomou um pedaço de barro e começou a dar-lhe forma. Júpiter se aproxima para contemplar o que o Cuidado havia criado e este lhe pede que lhe dê espírito aquela figura esculpida em barro. Quando, no entanto, o Cuidado quis dar seu nome à sua figura, Júpiter o proibiu e exigiu que lhe fosse dado o seu nome. Enquanto ambos discutiam, a Terra aparece e exige que lhe seja dado o seu nome, já que ela lhe ofereceu uma parte do seu corpo. Os conflitantes então decidem tomar Saturno como juiz. Saturno pronunciou-lhes a seguinte sentença: Tu, Júpiter, porque deste o espírito, receberás na sua morte o espírito; tu, Terra, porque lhe presenteaste o corpo, receberás o corpo. Mas porque o Cuidado por primeiro formou esta criatura, irá o Cuidado possuí-la enquanto ela viver. Como, porém, há discordância sobre o nome, irá chamar-se homo já que é feita de humus (STEIN, 2005, p. 98).


A fábula de Higino contada acima nos mostra que o Cuidado formou o homem e dessa forma, faz parte da existência humana; ser humano é cuidado. Com isso, a necessidade de cuidar e ser cuidado existe. Uma planta que está crescendo e necessita de terra adubada, sol e água. Um bebê que precisa de alguém que o alimente, o limpe, e o nutra de afeto. Um lar que necessita de limpeza, organização e manutenção. Esses são alguns momentos nos quais fica explícito a necessidade do cuidado para viver.


Podemos pensar o cuidar como algo necessário para a constituição do ser enquanto sujeito, e é possível identificá-lo como necessário desde o nascimento, o desenvolvimento até a morte. Para o escritor Leonardo Boff, "cuidar é mais que um ato; representa uma atitude de ocupação, preocupação, responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro, é um modo de ser-no-mundo que funda as relações que se estabelecem com todas as coisas.”

O que nos chama muito a atenção é que quem está em um rol de cuidador são mulheres, como se o cuidar fosse inerente à natureza feminina. Mulheres, esposa ou companheira, mãe, tia, avó, filha, irmã. Antes de serem, cuidam. Neste contexto, Izquierdo (1990) aponta que quando se pensa em mulher, supõe‐se um sexo, mas também muitas outras faces indentitárias tais como: dona‐de-casa, passividade, maternidade, afetividade. Enquanto ao homem, atribuem‐se características como investigador, profissional, agressivo, racionalista, pouco detalhista.


Historicamente, as mulheres foram posicionadas no lugar de cuidadora, quando se trata das relações sociais de cuidado. Desde a infância, existe um desenho de como as meninas e mulheres preencherão esse papel. As brincadeiras femininas, por exemplo, estão relacionadas com a função do cuidado, brincar de boneca, de casinha, de mãe etc. De alguma forma as escolhas das nossas profissões também se relacionam com esta função, podemos citar as carreiras que em sua maioria é feminina: pedagogia, enfermagem, psicologia.

A partir da nossa prática nos deparamos com algumas perguntas: Como a mulher está associada ao cuidar? O cuidado é uma responsabilidade feminina? É possível desnaturalizar a relação entre o feminino e o cuidado? Será que romantizamos o cuidar? Naturalmente nascemos para cuidar, enquanto os homens para serem cuidados?


A socióloga Sorj Bila nos aponta que o modelo de família constituído por “um homem provedor e uma mulher cuidadora” sofreu transformações com a inclusão cada vez maior da mulher no mercado de trabalho. Isso provocou rupturas nas referências culturais tradicionais de feminilidade e maternidade e desafiou as convenções sobre a posição das mulheres na sociedade.


Os movimentos feministas propõem que a forma como em nossa sociedade trabalho e família se relacionam produz e reproduz hierarquias, diferenças e desigualdades de gênero. Segundo Brioli (2014) a partir da divisão sexual do trabalho doméstico, as mulheres são responsabilizadas, prioritariamente, por cuidar das crianças, dos idosos e dos enfermos, o que significa que seu tempo será concentrado nessas atividades ou terá de ser dividido entre o trabalho remunerado, o cuidado e o trabalho doméstico.


A equação mulher igual a mãe, ou ainda, mulher igual ao cuidado do lar é muito engessada, será que isso ainda se sustenta nos dias atuais? A psicanalista Maria Homem faz uma reflexão onde diz que é como se tivéssemos dois tipos de seres, o tipo macho que sai, caça, investiga, explora e o tipo fêmea que é matriarca, passeia ao redor, protege. Porém, atualmente a casa não é mais prioridade da mulher, hoje a mulher é caçadora. A mulher já se pergunta: “eu quero ser mesmo mãe?”; “Que filhos eu quero ter? Um animal doméstico?”. Dessa forma, na nossa cultura podemos escolher cuidar ou não de um outro, e de quem cuidar.


Para que o cuidar não esteja de todo associado às responsabilidades das mulheres, se faz necessário criar políticas públicas sobre a perspectiva de gênero, e claro, refletir sobre o lugar das mulheres. Com isso, será possível ampliar as condições de autonomia e auto sustentação, promover a capacitação profissional, ampliar o acesso à escolaridade, possibilitar a revisão das funções do cuidado familiar e da divisão do trabalho doméstico; combater a violência sexual e doméstica; garantir o exercício dos direitos reprodutivos e sexuais; combater a pobreza das mulheres; fortalecer espaços de democracia como o controle social.


A construção de uma nova cara da história não é apenas das mulheres, mas sim, dos sujeitos sociais, de ambos os sexos, que podem questionar valores e construir novas possibilidades histórico‐sociais. Dessa forma, é preciso superar muitos dos tradicionalismos, do sistema patriarcal, racista e heteronormativo existentes em nossa sociedade.


Bibliografia

BIROLI, Flávia (2014). Família: novos conceitos. São Paulo: Editora da Fundação Perseu Abramo.

BOOF, L. Saber cuidar: ética do humano compaixão pela terra. Petrópolis (RJ): Vozes; 1999.

SORJ, Bila (2013). “Arenas do cuidado nas interseções entre gênero e classe social no Brasil”. Cadernos de Pesquisa, vol. 43, n. 149, pp. 478-91.

STEIN, E. Seis estudos sobre “Ser e Tempo”. 3 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

IZQUIERDO, M. J. Bases materiais del sistema sexo/gênero. São Paulo: SOF, 1992. Mimeografado.

TRONTO, J. C. Mulheres e Cuidados: o que as feministas podem aprender sobre a moralidade a partir disso? In: JAGGAR, A.; BORDO, S. Gênero, corpo, conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. p. 186-203.




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