O Racismo e as significações do corpo negro

Atualizado: 4 de jul.

Iassana Scariot


Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.

Nelson Mandela Livro "Longa Caminhada até a liberdade”, 1995.



Há expressões racistas, há palavras racistas, há atitudes racistas, e a lista é interminável. Nossa intenção com este escrito é introduzir o tema e conversar em uma sequência de textos sobre o racismo e o impacto do mesmo na subjetividade de pessoas negras, pensando nas formas em que a escuta analítica pode acompanhar e identificar os efeitos da desigualdade racial no aparato psíquico.


Frases como: "não sou preconceituoso, pois até tenho amigos negros" ou "não existe diferença entre raças, afinal somos todos humanos", fazem referência ao racismo individual, o qual o sujeito muitas vezes não percebe em seus atos discriminatórios. Quando as instituições praticam direta ou indiretamente a discriminação entre as raças, consideramos que o racismo é institucional, e aqui podemos utilizar como exemplo o sistema carcerário brasileiro, que está repleto de pessoas negras.


O racismo estrutural é a união dos racismos individual e institucional, ambos estruturam uma sociedade e naturalizam no imaginário coletivo que o lugar do negro está ligado à servidão ou à criminalidade. Isso leva tempo e é muito primitivo, podemos compará-lo ao cimento na construção de uma casa. Dessa forma, o racismo é algo maior do que a discriminação ou preconceito, diz respeito a formas nem sempre conscientes e também coletivas de desfavorecer negros e indígenas e privilegiar os brancos. Havendo assim, sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras.


Em 1952 Franz Fanon, psiquiatra e filósofo político descreve em seu livro “Pele negra, máscaras brancas” sobre toda uma construção do “ser negro”, e defende que é necessário pensar a relação simbólica que está implicada aí. Ele aponta para pensarmos que cotidianamente o branco coloca em ação essa lógica de pensar o negro como símbolo do mal e do feio, o que nos direciona à lógica do “bem-mal, bonito-feio, branco-negro”. Percebemos que essa é uma construção supremacista histórica, ou seja, está em todo lugar, está na escola, nas famílias, nas relações, no discurso midiático. E por isso, muitas pessoas negras não sabem que são negras, não têm sequer condições materiais para formular algo nesse sentido.


Fúlvia Rosemberg, em “Psicanálise e relações raciais”, na condição de pesquisadora da educação, interroga o tratamento dado à infância no âmbito das relações raciais, tendo em vista uma perspectiva que leva em consideração as dimensões materiais e simbólicas do racismo. A autora nos convida a pensar por um lado sobre a estrutura social, em relações sociais para além da interpessoalidade, no racismo que é sustentado pelas instituições, e de outro lado temos de pensar na dimensão simbólica, na inferiorização do negro como povo e pessoa, no imaginário, nas relações interpessoais, na ideologia racista. A autora trabalha com o conceito de ideologia no sentido de um sistema de produções simbólicas, que sistematicamente desumaniza, preconceitua, estereotipa, estigmatiza e inferioriza o outro.


Neste caminho nos surge a seguinte pergunta: Quais são as significações do corpo negro? A psicóloga e psicanalista Isildinha Baptista Nogueira vem a desenvolver que o corpo humano cumpre uma função ideológica que vai além de seu caráter biológico, ou seja, é afetado pela religião, grupo familiar, classe, cultura e outras intervenções sociais. Segundo Isildinha o corpo funciona como marca dos valores sociais, nele a sociedade fixa seus sentidos e valores. Socialmente o corpo é um signo. Em muitas sociedades o racismo determina a forma como pensamos. Assim, a cor da pele significa muito mais do que um traço da aparência, sendo associada a capacidades intelectuais, sexuais e físicas. Então, é como o ser negro estivesse associado a apenas qualidades físicas (a dança, os esportes, o trabalho pesado), e não intelectuais. Realmente, o olhar branco marca o negro, o corpo negro como diferente. A construção social do branco- negro - indígena se deu pelo olhar do homem branco, propondo que o corpo desejado seja o do branco, algo da ordem do impossível - desejo do Outro- de vir a ser branco. E dessa maneira, a autora nos ajuda a pensar que o negro se vê condenado a carregar na própria aparência a marca da inferioridade social e vive cotidianamente a experiência de que sua aparência põe em risco sua imagem de integridade.


E então, como pensar sobre o racismo estrutural no exterior, onde clichês, apagamentos, entre outros, são práticas comuns, seja estes, no trabalho ou nos engajamentos sociais e políticos. A identidade “migrante” acaba por não ser suficiente, onde cor, gênero, classe social e relações de dominação se mostram em toda a sua nudez. Na migração o branco é identificado como estrangeiro pela fala, o negro é identificado como estrangeiro pelo corpo, pela cor, é dado a ver. No prefácio do livro de Neusa Santos Souza “Tornar-se Negro”, o psicanalista Jurandir Freire da Costa não titubeia em afirmar que “ser negro é ser violentado de forma constante, contínua e cruel, sem pausa ou repouso, por uma dupla injunção: a de encarnar o corpo e os ideais de Ego do sujeito branco e de recusar, negar e anular a presença do corpo negro”. Uma vez mais a violência contra o negro, contra o seu corpo e o ser negro é escancarada, e merece a devida atenção. Dessa forma, nos próximos escritos poderemos seguir com nossas reflexões sobre o impacto do racismo na subjetividade de pessoas negras e sobre as formas em que a escuta psi pode acompanhar e identificar os efeitos da desigualdade racial no aparelho psíquico. Vem com a gente!


Referências:

Fanon, F. (2008). Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Ed. UFBA.


Nogueira, I. B. (1998) Significações do corpo negro. Tese de Doutorado em Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.


Costa, J. F. (1983). Prefácio em: Souza, N. S. Tornar-se negro: Ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal.






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