Por uma paternidade presente e saudável

Atualizado: 3 de nov. de 2021

Iassana Scariot




A crença está aí, é muito forte ainda que os homens só se tornam pais após o nascimento de seus filhos, quando é possível, pegá-los no colo, cuidar, vê-los. Pais, assim como as mães, também, não nascem sabendo ser pais. Os pais aprendem a serem pais no decorrer do processo, é na abertura de possibilidades para se reinventar.


Muitas vezes, os homens se acomodam (mesmo que de forma inconsciente) em uma opinião de que a função materna somente pode ser exercida pela mãe. Essa marca ganha sua existência e perpetuação por meio da construção de estereótipos sexuais presentes em nossa sociedade. O que é ser homem? O que é ser mulher? O que faz um homem? O que faz uma mulher? O que é e faz um pai? O que é e faz uma mãe? O aprendizado é o caminho e não a chegada, e ele é tão valioso quando se trata de aprender a exercer uma paternidade presente e saudável, sem negligências ou delegar as responsabilidades que são dos homens, enquanto pais.


Me lembro de uma conversa com um amigo na presença de sua filha (de 3 meses) e esposa, depois de alguns minutos de choro, a pequenina se aconchegou no colo materno e mamava. Ele, então, diz: “Ela é assim, muitas vezes chora e eu não posso fazer nada. O que resolve é a teta e o colo da mãe.” Sim, pode ser que em muitos momentos o corpo, a voz, o aconchego da mãe resolva o problema dos pequenos, mas esse lugar também é um lugar construído. Na hora pensei: “Será que ele está querendo se safar do lugar paterno?”; “Está se implicando neste processo?”; ou ainda, “Está aprendendo a ser pai?”. Para todas essas questões é necessário relembrar dos quatro pilares e repensar a saída deste lugar, onde tradicionalmente a criança só se tranquilizará com a mãe.


A partir de alguns escritos de Tiago Koch, idealizador do perfil de instagram @homempaterno e que trabalha construindo pontes entre os homens e a paternidade, foi possível se deparar com alguns conceitos e pilares da paternidade responsável: o amor, o conhecimento, a empatia e a comunicação. Percebo que esses quatro pilares estão entrelaçados, é necessário que exista comunicação entre eles para que dê certo a construção do ser pai. A partir dos sentimentos de amor e afeto virá a busca por conhecer mais do assunto “ser pai”, leituras, aberturas para esse novo papel. Quando for possível se colocar no lugar do outro, um horizonte para o entendimento e compreensão fará parte dessa relação. A escuta dos próprios sentimentos e dos sentimentos do outro abre espaço para todos esses pilares.


Todo filho/a precisa ser adotado, mesmo quando falamos da condição biológica. Este lugar de adoção é onde seus responsáveis o/a esperam e amparam, nutrindo um lugar de afeto e também de direitos. O movimento que acontece por aqui vai muito além da responsabilidade, é da ordem do desejo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Direito da Família mais de 5,5 milhões de crianças brasileiras não têm o nome do pai na certidão de nascimento. Tal negligência e irresponsabilidade por muitos homens se torna a omissão real da parentalidade.


A Psicanálise pode nos ajudar a pensar a parentalidade ligada às funções materna e paterna, as quais ultrapassam uma relação biológica. Tais funções não estão relacionadas com um ou outro gênero sexual, são funções que serão exercidas por ambos os gêneros. A criação de estereótipos sobre o feminino e o masculino contempla também as ideias de que o pai precisa exercer a autoridade e a mãe se responsabilizar pelos cuidados com a criança. A função paterna representa uma lei básica e primeira, a lei de interdição da relação simbiótica de mãe-filho, ou seja, entra como um terceiro nesta relação que separa para incluir. Esse “outro”, que exercerá a função paterna, incluirá a criança em um mundo fora da mãe, abrindo as portas e possibilitando a entrada desse filho/a na cultura.


Os pais que não emprestam seus nomes, não os acompanham nem na gestação, nem na criação, abandonam as oportunidades de se construírem como pais, e encontrarem a possibilidade de exercerem uma parentalidade saudável e presente. Abandonam a oportunidade de aprendizado e de ressignificar conceitos da masculinidade e paternidade, fica aqui o convite para refletir, que pai eu sou ou quero ser?





Referências


Documentário “O silêncio dos homens”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NRom49UVXCE


Documentário ‘Precisamos falar com os homens?” Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jyKxmACaS5Q


Koch, Thiago (2019). 4 pilares para uma paternidade mais presente e saudável. Disponível em: https://papodehomem.com.br/4-pilares-para-uma-paternidade-mais-presente-e-saudavel/


Instituto Brasileiro de Direito de Família: https://ibdfam.org.br/


Trinca, Ricardo. Paternidade e função paterna. Disponível em: https://www.sbpsp.org.br/blog/paternidade-e-funcao-paterna/




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