O estrangeiro e o processo de adaptação

Atualizado: 2 de fev.

Tainã Rocha




Mudar de país tem se tornado cada vez mais comum, basta caminhar pelas ruas que a gente nota. E a globalização facilitou um pouco esse processo de migração, já que contamos com acesso a muitos conteúdos que nos permitem conhecer o lugar para onde vamos e nos aproximar da cultura local. Porém, migrar é um processo que exige um grande esforço psíquico/emocional para o qual muitas vezes não contamos com ferramentas para poder lidar. E mesmo quando se trata de migrar para um país cuja cultura é similar ao país de origem, a adaptação tampouco é automática, exigindo tempo e esforço. Ao chegar no novo país, vamos experimentando sentimentos que vão mudando com o tempo. O antropólogo Kalervo Oberg (1954) investigou esse processo e criou a Curva de Adaptação Cultural que é composta por 4 fases pela qual um estrangeiro passa ao migrar. A primeira fase se chama Lua de Mel! Poderíamos traduzir essa metáfora com o seguinte ditado: “Tudo o que é bom, dura pouco!”. Essa primeira fase em geral pode durar de alguns dias a seis meses. Nela o estrangeiro se mostra radiante e muito feliz com a chegada no novo país, mostrando-se empolgado com a nova cultura e tudo ao seu redor; tudo é novidade e pronto para ser explorado. Tudo é festa, o país parece perfeito, há muito entusiasmo pela possibilidade de entrar em contato com pessoas novas, outra cultura… mas é importante saber que nessa fase estamos sob efeito de uma certa ilusão, chamamos isso de idealização! É muito comum esse comportamento de idealizar quando não conhecemos algo com profundidade. Estar advertido dessa idealização é muito importante porque faz com que a entrada na segunda fase não seja tão impactante. Uma estratégia para este momento é buscar atividades que substituam as que você tinha no país de origem. Isso permite estruturar uma rotina, experimentar satisfação, melhorar o idioma ao ter contato com os locais e fazer contatos que facilitem a integração.

A segunda fase se chama choque cultural, nessa etapa ocorre uma desilusão com o novo país e a pessoa muitas vezes passa a depreciar e ser hostil com tudo aquilo que está associado ao novo país. É aquele momento em que tudo de ruim se ressalta aos olhos. O cotidiano passa a ser visto com dificuldade, como por exemplo, a comunicação que não flui por não dominar ainda o idioma, o sistema de transporte diferente com o qual ainda não se acostumou, dificuldade de fazer novas amizades, de entender o conteúdo das aulas ou estilo de estudo, de se vincular no ambiente de trabalho… As expectativas não atendidas acabam produzindo uma sensação de frustração e um pensamento comum nesse momento é: "Não era bem assim que eu imaginei que seriam as coisas…”. A depender da idade, começar a ter que cuidar de si, cozinhar todos os dias, estar atento a novas responsabilidades… É compreensível e até natural sentir-se angustiado mesmo quando se trata de uma experiência que vocês escolheram vivenciar. Se está passando por muitas coisas ao mesmo tempo. Houve o abandono temporário de sua vida no seu país de origem, sua língua materna, seus hábitos e seus costumes, redes de apoio, além dos códigos culturais.

Ao chegar no novo país se experimenta também um estado de desamparo. Este desamparo se dá pela perda dos símbolos e sinais familiares. Estes códigos familiares dizem respeito a atitudes, gestos, expressões faciais e etc, que comumente usamos no nosso dia a dia em nossa terra natal, isto é, o aperto de mão, a forma como falar com as pessoas, o humor e a ironia entre pares, a maneira socialmente aceita de como se portar em público, entre outros. Na situação de ir morar em um país estrangeiro, estas “pistas” familiares desaparecem, fazendo com que o sujeito se sinta deslocado. Nesse momento há uma tendência de se agrupar com pessoas do mesmo país. Como uma forma de tentar recuperar algo dessas referências que foram perdidas, de resgatar algo conhecido em meio ao desconhecido, de formar uma comunidade que dê a sensação de que ainda se está no Brasil. É um período de crise, em geral a pessoa começa a pensar em desistir, que talvez o melhor seja voltar pro país. E é importante que se avalie realmente se o melhor é voltar ou se o desejo é de ficar. Mas essa avaliação precisa ser feita de modo muito cuidadoso, com responsabilidade, já que por se tratar de um momento muito duro, tudo ganha proporções enormes e há muita resistência. Há resistência em assimilar que se está em outro país e que as coisas são diferentes, não vai ter a marca de café que se gosta, o feijão que comia… Mas vai ter outras coisas! E talvez esse seja o ponto de clivagem, a chave para sair dessa fase. Aceitar a diferença e focar no que há, no que tem, nas novidades que o país te apresenta e que você vai aprendendo a gostar. Aceitar sair da zona de conforto e ampliar o próprio mundo. Saber que embora as coisas estejam difíceis e pareça que você não vai conseguir se acostumar, é só uma fase, passará.

A terceira fase se chama Adaptação. Aqui a pessoa começa a entender como as coisas funcionam, não só aceita os costumes do país estrangeiro, como também passa a desfrutar da nova cultura. Sente que faz parte do novo ambiente, que está integrado. Mas a adaptação cultural acontece gradativamente, em um processo tipo espiral. Há alternância entre experiências estressantes e eventual crescimento e adaptação que resulta do desafio. Cada situação estressante sucessiva leva a pessoa para um alto nível de adaptação. Com o tempo, a adaptação torna-se mais fácil. Conforme a espiral avança, cada vez menos estresse é experimentado e mais adaptação é alcançada. Ou seja, não é de um dia pro outro que a adaptação acontece, mas é um processo contínuo, porque assimilar outra cultura é algo complexo. Existem os aspectos mais superficiais que podem ser facilmente percebidos (idioma, arquitetura, comida, população, música, vestuário, arte e literatura, ritmo de vida, gestos, atividades de lazer e esportes) e outros que mais profundo (que inclui valores, tais como as crenças, as regras sobre relacionamentos, as motivações, os papéis, a tolerância para a mudança, comportamento machista, importância das expressões faciais, estilos de comunicação, entre outros). A adaptação requer lidar com ambos aspectos.

E aí chega a última fase que é a de readaptação ao próprio país. As dificuldades também podem estar presentes na repatriação, no retorno ao país. Muitos acham que ao voltar para casa as coisas serão iguais a quando saíram, mas o tempo passou, as pessoas mudaram, você mudou. Esse retorno também exige readaptação ao contexto da família, da língua, dos amigos e dos hábitos que possuíam antes de partirem para o exterior. Para alguns a volta ao país de origem pode representar um retrocesso, um fracasso. Já para outros, a experiência que tiveram no exterior possibilitou um amadurecimento e maior conhecimento de si. Já se sabe como lidar com a situação e começar a investir no futuro, nos planos. Seja como for, retornar ao país de origem ganhará o significado que demos a esse passo. Regressar pode ser a melhor decisão para a pessoa e requer da mesma coragem que se teve quando se saiu do país.





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