Dando voz ao estrangeiro: uma aposta de análise

Atualizado: 29 de abr.


Gicelma Barreto Nascimento

Iassana Scariot

Tainã Rocha



A imigração é um tema que suscita muita discussão do ponto de vista político e socioeconômico, porém o aspecto da saúde mental não recebe muita atenção, embora haja uma associação entre processos migratórios e maior vulnerabilidade ao sofrimento psíquico. Em 2019, o número de migrantes internacionais (pessoas que residem em um país diferente do país de nascimento) atingiu 272 milhões em todo o mundo. Este escrito tem como objetivo refletir sobre nossa experiência clínica com sujeitos migrantes, levando em consideração os movimentos subjetivos que envolvem a complexa trama do migrar.


Do ponto de vista subjetivo, as migrações são processos complexos. A experiência da migração é vivida com rupturas pelo corte que provoca nos laços sociais, emocionais, linguísticos e simbólicos. Nesse sentido, mesmo quando se trata de uma migração escolhida, o ato de migrar traz certo desconforto e a série de perdas pode ser vivida como luto. A transição de uma cultura para outra requer um esforço de adaptação que não é fácil. A falta de integração e aceitação no novo país, as experiências de discriminação, a dificuldade de encontrar um lugar e assimilar aspectos da nova cultura dificultam o processo.


Nesse sentido, as experiências desse processo podem ser profundamente enriquecedoras quando ocorrem dentro de um quadro de respeito pelos direitos e necessidades dos migrantes. Na Argentina, a Lei Nacional de Migração nº 25.871, regulamentada em 2010, traz grandes avanços em termos de garantia de certos direitos fundamentais para a população migrante. Entre os seus principais postulados, reconhece a migração como um “direito essencial e inalienável da pessoa”, portanto, o Estado deve garanti-lo “com base nos princípios da igualdade e da universalidade”.


A OMS (2018) indica que “um ambiente de respeito e proteção aos direitos básicos civis, políticos, socioeconômicos e culturais é fundamental para a promoção da saúde mental”. Sabemos que a saúde mental também se vê comprometida devido a “rápidas mudanças sociais, condições estressantes de trabalho, discriminação de gênero, exclusão social, estilos de vida pouco saudáveis, riscos de violência, má saúde física e violações dos direitos humanos” (OMS, 2018). Os sujeitos migrantes são particularmente mais vulneráveis ​​a esses fatores, uma vez que “o deslocamento territorial também implica a re-localização em dois mundos distintos e o desafio de integrá-los na subjetividade” (Graciela Zaldúa e Carlota Ramírez, s.f. p. 12).

Sentimentos ambivalentes podem surgir nos processos migratórios: por um lado, as expectativas de construir algo melhor já que o país receptor - em termos de bem-estar e qualidade de vida - tende a oferecer maiores possibilidades do que o país de origem (Machado, 2010); por outro, a nostalgia e a sensação de que o que ficou para trás é algo irremediavelmente perdido. O sofrimento e o luto por não conseguir se reconhecer no novo lugar, por sentir que não faz parte daí, gera um vazio pelo encontro com a ausência de referências que toca um ponto de desamparo que produz angústia.

Também requer desmontar-se e reconstruir-se em um processo muitas vezes doloroso e solitário. Ter um espaço de trocas sobre essas experiências contribui para a apropriação da experiência migratória e a construção de uma rede de apoio. A criação desses vínculos é um fator de proteção importante, pois dá aos migrantes um sentimento de pertencimento. As relações entre sujeitos na sua radical alteridade, assim como o encontro com outra cultura, podem produzir questionamentos de pontos de vista fixos e experimentação do inesperado, do surpreendente, pode provocar um movimento de mudança de si e do outro através do encontro com o que é estranho para nós.


Cada sujeito tem um tempo diferente, um tempo próprio para pensar na aceitação desta condição e a partir daí poder viver da melhor maneira possível. O processo de análise, ao permitir que o sujeito olhe para estas questões e se familiarize com o estrangeiro que o habita, pode facilitar a modificação da relação singular com outras pessoas e outras culturas, permitindo assim, transformar aquilo que tem a função de hostilidade em hospitalidade.

O psicanalista oferece um espaço de escuta para que o sujeito possa falar do mal estar produzido pela condição de estrangeiridade, também acompanha lado a lado o processo de adaptação e de mudanças que afetam a subjetividade. Em nossa prática clínica escutamos alguns relatos de sujeitos migrantes que caracterizam a complexa trama do migrar.


A clínica com sujeitos migrantes nos convoca a pensar nos impactos das mobilizações humanas nas subjetividades Como afirma Lacan, aos psicanalistas cabe a responsabilidade de acompanhar e lidar com as subjetividades de sua época. Assim, nosso trabalho com sujeitos migrantes consiste na construção e elaboração dos efeitos da migração, é um trabalho de memória e narrativa que vislumbra a apropriação da experiência migratória e desse lugar de estrangeiridade. Dessa forma, apostamos na transformação desse lugar estranho em familiar para que uma e outra vez o que é vivenciado como da ordem do infamiliar se familiarize.



Referências


Ley N° 25.871: Ley Nacional de Migraciones. Poder Legislativo de la Nación Argentina.

Machado, F. L.; Roldão, C. (2010). Imigrantes idosos: uma nova face da imigração em Portugal. Estudos Observatório da Imigração; 39.


Nascimento, G. B.; Scariot, I.; Rocha, T. (2021). Fuera de lugar: consideraciones psicoanalíticas sobre las experiencias de la extranjeridad. En: Romina J. Alves (org.). Acerca de la migración en la clínica psicoanalítica: fantasia, transferencia y campo analitico. 140p. 1a ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Rv Ediciones, 2021.


Zaldúa, Graciela; Ramírez, Carlota. Migración y Salud Mental. Disponible en: http://www.psi.uba.ar/academica/carrerasdegrado/psicologia/sitios_catedras/electivas/067_psico_preventiva/material/teoricos/clase_migracion.pdf Acceso en: 20/10/2021.







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